MEMORIAL POÉTICO - 35 CUBOS E VARIAÇÕES
Uma roda gira.
Tomemos uma situação óbvia. Uma roda gira por um impulso. Um cubo gira por um impulso.
O cubo gira por um impulso provocado por algo, pelo sopro de uma corrente de vento.
Numa determinada situação, por exemplo, uma pena suspensa no ar, sustentada pelo sopro do vento, presa ao teto de uma sala por uma linha. Ao soprarmos a pena, ela não se move. Trata-se de uma pena virtual, uma mentira.
Outra mentira, uma cascata - uma corrente de água desce por um caminho de pedras.
Pela cascata, pelo caminho das águas por entre as pedras, sobe uma mulher. Nada até o topo da encosta aquosa e retorna, maiô azul colado ao corpo. Pele branca da mulher, molhada. Depois de algum esforço, solta o corpo. Deixa-se levar pelo fluxo das águas sentido rio abaixo.
Águas rolam como cubos; às vezes, como paralelepípedos.
Diante das árvores altas, corre a veia aquosa lamacenta, calcária. Volume de água sagrada, amarela, ocre.
Uma extensa alameda diante dos olhos, longilínea à espera de que a percorramos. Uma homilia. O banco de pedra à beira das fontes.
Do nada em volta, não nos apercebemos. Apenas da pena, presa ao teto desta sala.
Quando, diante de uma coleção de penas, a primeira coisa que notamos é a sua forma peculiar, longilínea, são elas quase transparentes, ocupantes de um certo lugar.
Então, vejamos, um conjunto de cubos. Um cubo laranja, outro cubo azul, outro amarelo, e assim por diante. À medida que os cubos rolam, notamos mudança na tonalidade dos lados. Num cubo de lados coloridos diferentes, um lado com uma cor diferente, cinza.
Volte-se para dentro de você e observe. Podemos notar a existência de alguns compartimentos, de diversos tamanhos, compartimentos de memória. Compartimentos frágeis que podem ser abertos com a força de um sopro. O sopro, não podemos medi-lo. O equilíbrio, podemos imaginá-lo, ao observarmos o deslocamento de um pêndulo, qualquer pêndulo.
O sopro que abre nossos compartimentos de memória desloca o pêndulo que balança e nos dá a noção do equilíbrio.
Quando mais profundas se tornam essas divagações, mais grave o meu desconforto, até me sufocar completamente. |
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