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A espera no aeroporto Heathrow de Londres não levou mais do que vinte minutos. Tempo para um café e uma rápida folheada na edição do Superman, Três histórias sobre o homem de aço jamais contadas, que havia comprado numa banca em Roma.
Atravessando o túnel que me levou ao aeroplano, a sensação foi a de entrar mesmo num aeroplano, numa espécie de túnel do tempo, indo parar direto nos anos 50.
No jato da Icelandair, companhia oficial da Islândia, aguardavam simpáticas comissárias com a pele clara como a neve. Belas aeromoças altas com caras de esquimó, desejando aos felizes tripulantes, cordialmente, em inglês e islandês, uma boa tarde e boa viagem.
Londres-Reyjavik, três horas de vôo em direção ao círculo polar ártico. Na refeição, repolhos com molho agridoce e suco de laranja com sabor de acerolas verdes e aroma de água de côco azeda.
Decolamos de Londres, num dia frio de inverno, o relógio marcava 13:20h.
Passava das cinco da tarde e ainda estávamos sobre o atlântico norte, voando em círculos, quando um senhor com sotaque francês ou alemão nos informou que voltaríamos para Glasgow, pois Reyjavik estava sobre grossa camada de neve.
Glasgow, na Escócia. Aterrisamos em Glasgow. A companhia aérea nos pediu gentilmente que aguardássemos até que a tempestade passasse, em Reyjavik, para que pudéssemos seguir viagem. Isso poderia levar algumas horas ou alguns dias, nos informou o comandante.
Para a felicidade geral do grupo, estudantes ingleses, cidadãos franceses e islandeses que me acompanhavam, a espera levou um dia e meio. Tempo suficiente para conhecermos Glasgow, alguma coisa entre Campinas com roupagem londrina. Em Glasgow notei que as faxineiras tomavam, como café da manhã, cerveja preta com pão de cereais.
6:30 da manhã, um dia e meio depois, deixamos por fim a cidade escocesa, partindo em direção a ilha viking, terra das sagas, do gelo e dos vulcões nevados.
A aterrisagem em Reyjavik foi um desastroso sucesso. O avião parou próximo ao portão e tivemos que aguardar o fim da tempestade para que o aparelho fizesse as manobras e enfim pudéssemos desembarcar, todos, sobreviventes, ingleses, franceses, islandeses e um brasileiro na estação espacial em forma de bolha: o aeroporto de Keflavik.
A primeira impressão de quem chega à Islândia no inverno é a de que estivéssemos desembarcando numa lua albina. Não se vê árvores, notamos somente planícies e cordilheiras, cordilheiras e planícies. E muita luz, ali, fiat lux.
Reyjavik é uma cidade simpática e os islandeses, como nós brasileiros, expansivos e generosos.
Antes de ir ao porto retratar os navios, objetivo principal da minha viagem, e depois de deixar minha bagagem na Guesthouse do simpático senhor Olafsson, fui até a livraria comprar pilhas para a câmera fotográfica. Na livraria ao lado do McDonalds, tocava no rádio, Desafinado, na versão de Astrud Gilberto. Nas estantes, o novo livro do Paulo Coelho (nem tudo é perfeito), em islandês.
Fui até o porto, vi a baía banhada pela luz amarela do sol de fim de tarde, o muro de cordilheiras ao fundo.
Diante de mim, paquetes e embarcações de diversas cores:
“Os navios vistos de perto são outra coisa e a mesma coisa, dão a mesma saudade e a mesma ânsia doutra maneira. Tudo na vida marítima! Tudo na vida marítima! Insinua-se no meu sangue toda essa sedução fina e eu cismo indeterminadamente as viagens.”(Ode Marítima, Fernando Pessoa) |
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